Atividades para regular emoções: praticar antes do desborde
8 min de leitura
Se chegaste até aqui depois de uma tarde de gritos, um berro ou um choro que não entendias, para um momento: não estás a fazer as coisas mal. Quando uma criança se desborda, quase nunca é a melhor altura para lhe ensinar alguma coisa. O cérebro dela está em modo tempestade, e o teu, muito provavelmente, também. A boa notícia é que a regulação emocional não se aprende no momento da crise, mas antes. Treina-se nas horas tranquilas, a brincar, com o corpo, sem discursos. Como quem pratica uma língua ou um desporto: repetes quando há calma, para que no dia em que chegar a onda tenhas algo a que te agarrar. Neste artigo proponho-te atividades concretas de regulação emocional para crianças, com o porquê por trás de cada uma. Sem magia e sem promessas: a emoção não vai desaparecer, mas podem ir construindo, aos poucos, ferramentas para que baixe um degrau. E isso já é aprender.
Porquê se pratica antes, e não durante
Pensa em quando tu estás muito zangada ou muito pressionada. Nesse instante ninguém te dá lições úteis: o que precisas é que alguém esteja lá, que baixe o ruído, que não deite mais lenha na fogueira. Às crianças acontece o mesmo, só que com muito menos cablagem para travar o impulso. Quando a criança está desbordada, a parte do cérebro que raciocina fica como desligada. Por isso, em pleno acesso de fúria, explicar, negociar ou pedir que respire costuma funcionar pouco. Não é que não queira: é que nesse momento não pode. Por baixo de cada desborde há uma necessidade: cansaço, fome, frustração, a sensação de não ter controlo sobre algo, ou simplesmente demasiados estímulos. O comportamento que vês (atirar-se ao chão, bater, gritar) é o que a criança faz com o que tem. A nossa tarefa não é reprimir esse comportamento, mas ir-lhe dando, aos poucos, habilidades melhores. E essas habilidades treinam-se quando o mar está calmo.
Atividades para notar o corpo
A regulação começa no corpo, não na cabeça. Antes de conseguir dizer 'estou zangado', a criança precisa de reconhecer que o coração lhe vai rápido ou que tem a barriga apertada. Estas atividades treinam essa escuta, e são fáceis de encaixar no dia a dia.
O semáforo do corpo
Numa hora tranquila, brincai a dar nome aos sinais do corpo. 'Quando estás muito contente, o que fazem as tuas mãos? E quando alguma coisa te dá muita raiva, onde sentes isso?'. Não procures respostas perfeitas: o objetivo é que comece a olhar para dentro. Podem desenhar juntos um boneco e marcar onde mora cada emoção.
Respirar como animais
Em vez de pedir 'respira fundo' (algo abstrato para uma criança pequena), transforma-o em brincadeira: respirar como um urso que se enche, soprar como para apagar velas, cheirar uma flor imaginária. Pratica-se a rir, no sofá, não a meio do choro. Assim, no dia em que estiver nervosa, a ferramenta já lhe parece familiar.
O canto da calma
Prepara juntos um espaço com almofadas, uma manta ou algum objeto de que ela goste. Atenção: não é um canto de castigo nem um sítio para onde 'a mandas'. É um lugar para onde ir quando o corpo pede para parar, e ao qual às vezes vão os dois. Que ela participe em montá-lo faz com que o sinta como seu.
Atividades para dar nome ao que se passa
Quando uma criança consegue nomear o que sente, tem menos necessidade de gritá-lo com o corpo. Pôr palavras é uma habilidade, e como toda a habilidade, pratica-se. Não se trata de sentar a criança a falar dos seus sentimentos, algo que costuma aborrecer ou incomodar. Trata-se de tecer as emoções naquilo que já fazem: a brincadeira, o conto, a refeição.
Emoções nos rostos
Com fotos, desenhos ou cartas, vão nomeando emoções: 'esta cara parece assustada, tu quando pões essa cara?'. Pode-se brincar a imitá-las em frente ao espelho. Rir-se enquanto se exagera uma cara de zanga também ensina que as emoções se podem olhar sem medo.
O conto como espelho
Os contos são uma via preciosa porque mostram, não sermoneiam. Quando uma personagem se frustra porque lhe cai a torre, a criança reconhece-se sem se sentir apontada. Ao ler, podes parar e perguntar 'como achas que ele se sente agora?', mas sem transformar isso num exame. Às vezes basta ler e deixar a história fazer o seu trabalho.
O resumo do dia
Num momento tranquilo, como a hora do banho ou antes de dormir, contam os dois algo do dia: um momento bom e outro que custou. Que te oiça dizer 'hoje tive um dia difícil no trabalho e respirei um bocadinho' ensina-lhe mais do que mil explicações. As crianças aprendem a regular-se vendo-nos regular.
Atividades para antecipar e dar sensação de controlo
Muitos desbordes nascem do surpresa ou da sensação de não controlar nada. Antecipar reduz essa tensão. Não evita todas as tempestades, mas baixa bastantes. Uma rotina visível, com desenhos do que vem a seguir (pequeno-almoço, creche, parque, banho, cama), ajuda a criança a saber o que vem depois. Sabê-lo dá-lhe segurança, e a segurança regula. Outra ferramenta simples: dar-lhe escolhas limitadas. 'Queres o pijama azul ou o dos dinossauros?' não muda o facto de que há que vestir o pijama, mas devolve-lhe uma pitada de controlo sobre o seu mundo. E quando uma criança sente que pinta alguma coisa, precisa de lutar menos. Para transições difíceis (sair do parque, desligar a televisão), avisa com antecedência: 'daqui a cinco minutos vamos embora'. Não faz milagres, mas dá tempo ao cérebro dela para se preparar em vez de viver aquilo como um travão brusco.
E quando chega o desborde, o que faço eu?
Por muito que pratiquem, haverá dias de tempestade. É normal. A regulação não é uma linha reta. Aqui não te serve a lista de atividades, serve-te saber como acompanhar o momento. Três passos simples. Primeiro, protege com um limite que seja ação, não sermão. Se está a bater, não vale a pena explicar porquê bater é mal: vale a pará-la com calma. 'Não te deixo bater', e seguras-lhe a mão ou retiras-lhe do sítio. O limite faz-se, não se discursa. Segundo, valida. Nada de 'não é nada' (porque para ela é). Melhor: 'estás muito zangada porque querias continuar a brincar'. Pôr palavras à tempestade dela ajuda-a a sentir-se acompanhada, não sozinha. Terceiro, co-regula. A tua calma é a âncora dela. Baixa a voz, respira, oferece-lhe a tua presença sem lhe exigires que se acalme já. A emoção baixará um bocadinho, ao ritmo dela. Sem magia. E uma nota para ti: se notares que tu também estás prestes a explodir, não te culpes. O adulto também se desborda. Reconhecê-lo e respirar um segundo antes de responder já é um bom começo. Não é preciso fazer perfeito, é ir praticando.
Por onde seguir
Se queres ter à mão ideias concretas para praticar em calma, na nossa secção de atividades encontrarás propostas de regulação emocional pensadas para fazer em casa, adaptadas por idades e sem necessidade de materiais estranhos. São aquele treino do dia tranquilo que depois marca a diferença quando chega a onda. E se procuras uma via mais suave para a criança se reconhecer sem se sentir apontada, os contos são um bom aliado: mostram emoções em personagens, oferecem uma frase-ferramenta que podem repetir juntos e abrem conversa sem sermões. Podes dar uma vista de olhos aos nossos contos e escolher o momento que vos faça mais sentido agora. Não há uma fórmula única. Experimenta, observa o que resulta com o teu filho e contigo, e dá-te permissão para ajustar. Acompanhar é isso: ir aprendendo juntos.
Recursos relacionados
Ver atividades de regulação emocional para praticar em calma (/pt/actividades/) Explorar contos que mostram emoções sem sermões (/pt/cuentos/)
Perguntas frequentes
A partir de que idade posso começar com estas atividades?
Desde muito pequenos podes fazer versões simples: nomear emoções em voz alta, respirar a brincar ou preparar um canto da calma. Com crianças de dois ou três anos trabalha-se sobretudo com o corpo e a brincadeira; a partir dos quatro ou cinco já conseguem pôr mais palavras. Adapta o nível ao teu filho, sem pressa.
Praticamos muito e mesmo assim continua com birras, estou a fazer mal?
Não. As atividades não eliminam as emoções nem as birras, e isso é saudável: uma criança que sente é uma criança que está a desenvolver-se bem. O que se treina é ter mais ferramentas para que a tempestade baixe um pouco antes ou dure um pouco menos. É um processo longo, não um interruptor.
Quanto tempo é preciso dedicar-lhe por dia?
Não precisas de sessões formais. Estas atividades cabem em momentos que já existem: o banho, o trajeto para a creche, o conto antes de dormir. Alguns minutos de forma frequente e em calma valem mais do que um bocado longo e forçado. A constância suave ganha à intensidade.
Em pleno acesso de fúria, peço-lhe que respire ou que vá ao canto da calma?
Durante o desborde costuma funcionar pouco, porque o cérebro dela não está para raciocinar. É melhor guardar essas ferramentas para as praticar em calma e, no momento, centrar-te em pôr um limite se for preciso, validar o que sente e co-regular com a tua presença. O canto oferece-se, não se impõe.
E se for eu quem se desborda com as emoções do meu filho?
É algo que acontece a quase toda a gente e não te faz pior mãe ou pai. Reconhecê-lo é o primeiro passo. Respirar antes de responder, sair um bocadinho se puderes ou simplesmente baixar a voz já ajuda. Cuidar da tua própria regulação é parte do trabalho, não um extra.
Quando é que devo consultar um profissional?
Se notares que os desbordes são muito intensos, muito frequentes ou interferem de forma clara no dia a dia da criança e da família, ou se algo te preocupa de forma continuada, fala com o teu pediatra ou com um profissional da infância. Consultar não é alarmar-se, é acompanhar bem.