Aprender a partilhar: turnos sem obrigar nem envergonhar
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O teu filho agarra o cubo com as duas mãos, fica vermelho e grita "meu!" diante da outra mãe do parque. E tu sentes o calor a subir-te ao rosto. Queres que seja generoso, não queres ficar mal, e ao mesmo tempo algo dentro de ti sabe que arrancar-lhe o cubo não é a resposta. Se te soa, respira. Não estás a fazer asneira. Partilhar é uma das competências sociais mais difíceis da primeira infância, e quase ninguém nos contou como se aprende de verdade. Neste artigo vamos ver o que se passa por baixo desse "meu!", que competência o teu filho está a desenvolver, e como podes acompanhar o momento sem obrigar nem envergonhar ninguém. Sem fórmulas mágicas: com calma e passos concretos.
Por que custa tanto às crianças partilhar
Antes de mais, e isto muda muito a forma de ver: quando o teu filho não quer largar o brinquedo, não está a ser egoísta nem a "portar-se mal". Está a fazer o que pode com o que tem. Para partilhar de verdade, uma criança precisa de várias coisas que ainda estão em construção: perceber que o brinquedo vai voltar para ele, tolerar a frustração de esperar, pôr-se no lugar do outro e regular a emoção que sobe quando algo que quer se lhe escapa. Isso é imenso cérebro a trabalhar ao mesmo tempo. E todo esse andaime desenvolve-se aos poucos, ao longo de anos. Por isso, quando um miúdo de dois ou três anos se agarra ao seu cubo, não te está a desafiar. O cérebro dele ainda não distingue bem entre "empresto" e "perco". Para ele, largar é perder. E defender-se de uma perda é das coisas mais humanas que há.
Partilhar obrigado não é partilhar
Quando lhe dizemos "dá o brinquedo ao teu amigo" e lho tiramos das mãos, a criança aprende qualquer coisa, sim: que o mais forte leva as coisas, e que as vontades dela não contam. Não aprende a partilhar. Aprende a ceder por medo ou para evitar a zanga do adulto. A generosidade real nasce quando a criança escolhe dar, não quando a obrigam.
A necessidade por baixo do "meu!" e a competência que se treina
Por baixo desse "meu!" há uma necessidade muito legítima: a de sentir que tem controlo sobre o seu mundo. A esta idade, possuir coisas é uma maneira de dizer "eu existo, eu decido". É parte saudável de construir a sua identidade. Não é um defeito que seja preciso corrigir. Quando percebemos isso, deixamos de lutar contra a conduta e começamos a treinar a competência. E a competência aqui não é "partilhar" a seco. É algo mais fino: a capacidade de tolerar a espera, de confiar que o que empresta volta, de ler que o outro também tem vontade e de regular a emoção que aparece quando toca esperar a sua vez. Por isso os turnos funcionam melhor do que o "partilha" à primeira. O turno tem um princípio e um fim claros: "agora tu, depois ele, depois outra vez tu". Dá à criança a segurança de que não está a perder nada para sempre. E essa segurança é mesmo o que lhe permite, com o tempo, largar sem angústia.
Como acompanhar o momento em três passos
Quando o conflito pelo brinquedo salta, não é preciso um discurso. É preciso presença e uma acção clara. Aqui tens uma maneira de te moveres pelo momento. Primeiro, protege com um limite que seja acção, não sermão. Se há puxões ou se algo vai voar, aproximas-te, metes o teu corpo ou a tua mão no meio com calma e dizes o mínimo: "Não deixo que lhe tires o brinquedo das mãos. Está a usá-lo". Não é preciso mais. O limite é posto pela tua presença, não pela tua voz alta. Segundo, valida o que cada um sente. "Queres aquilo imenso. Custa esperar." E ao outro: "E tu também tens vontade de brincar com isso." Dar nome ao que acontece não piora; pelo contrário, ajuda a que a emoção baixe um bocadinho. Não muito. Um bocadinho. E isso já é aprender. Terceiro, oferece a ferramenta do turno e acompanha a espera. "Agora é a vez do Lucas. Quando ele terminar, é a tua vez. Eu fico contigo enquanto esperamos." Podes dar-lhe algo com que aguentar a espera: a tua mão, outra coisa para fazer, contar juntos. A espera com um adulto ao lado aguenta-se muito melhor do que a espera em solidão.
O trabalho do adulto nesse momento
Aqui vem a parte que quase ninguém diz em voz alta: a ti também se te dispara qualquer coisa. Vergonha porque olham, pressa para resolver, a vozinha do "o que vão pensar". É normal. Mas se entras no conflito a partir do teu próprio desgaste, ainda lhe deitas mais lenha à fogueira. Antes de intervir, repara no teu corpo: os ombros, a mandíbula, a respiração. Um segundo teu de calma vale mais do que dez frases perfeitas. Não estás a actuar para um público; estás a acompanhar o teu filho.
O que convém evitar (mesmo que nos saia sozinho)
Há reacções muito habituais que, sem querer, dificultam a aprendizagem. Não tem mal se as fizeste mil vezes; todos já o fizemos. Trata-se de ir largando-as aos poucos. Evita envergonhar: "que feio, não se faz, olha como choras". A vergonha não ensina a partilhar, ensina a esconder-se. A criança não aprende a competência; aprende que dar problemas é sentir-se mal diante de todos. Evita as etiquetas: "é que é muito egoísta", "este miúdo nunca partilha". Quando repetimos uma etiqueta, a criança acaba por acreditar nela e age em conformidade. É muito mais útil descrever a conduta concreta do que julgar quem é. Evita minimizar: "não tem mal, não é para tanto". Para ele é mesmo para tanto. Se lhe dizemos que a emoção dele não conta, ensinamo-lo a desconfiar do que sente. E evita as lutas de poder: se te empenhas em ganhar o pulso do brinquedo, perdem os dois. O teu papel não é ganhar, é suster o momento sem o incendiar mais.
Praticar a partir da calma, não só no conflito
Aqui vai uma ideia que alivia muito: a competência de partilhar não se treina em pleno grito, treina-se antes, nos momentos tranquilos. No momento quente só contemos e acompanhamos. A aprendizagem de fundo acontece na prática a partir da calma. Como? Com jogos de turnos onde não há nada em jogo emocionalmente. Rodar uma bola de um lado para o outro, empilhar blocos por turnos, brincar a "agora tu, agora eu" com qualquer coisa. Cada vez que o teu filho espera a sua vez num contexto descontraído, está a fortalecer o músculo que depois vai precisar no parque. E os contos são uma ferramenta preciosa para isto. Quando uma personagem vive o mesmo puxão que o teu filho (querer algo, não largar, descobrir que o turno funciona), o teu filho vê-se reflectido sem se sentir apontado. Pode pensar sobre a situação a partir da distância segura da história, quando não está desbordado. Isso é ouro para aprender.
Por onde seguir
Se queres uma forma tranquila e sem sermões de trabalhar isto em casa, temos dois caminhos que se complementam. O primeiro é um conto pensado mesmo para este momento: uma história onde o turno aparece como uma ferramenta que ajuda, não como uma ordem. O teu filho vive-a junto da personagem, a frase-ferramenta repete-se e fica, e tu tens um guia para acompanhar o momento real quando chegar. É a maneira de semear a competência a partir da calma, lendo juntos, antes que o conflito salte. O segundo são actividades e jogos de turnos para o dia a dia: propostas simples para praticar o "agora tu, agora eu" sem pressão, nesses momentos tranquilos onde de verdade se treina a competência. Pequenos ensaios que depois dão os seus frutos no parque. Lembra-te: partilhar não se aprende de um dia para o outro, e não há truque que o resolva de uma vez. É um músculo que se desenvolve devagar, com muitos turnos, muitos acompanhamentos e muita paciência contigo mesmo. Cada vez que susteres o momento sem obrigar nem envergonhar, estás a ensinar. Mesmo que nesse dia pareça que não serviu de nada.
Recursos relacionados
Lê o conto para aprender a partilhar com turnos, sem obrigar (/pt/cuentos/aprender-a-compartir/) Descobre actividades e jogos de turnos para praticar a partir da calma (/pt/actividades/)
Perguntas frequentes
A partir de que idade é que as crianças deviam começar a partilhar?
Não há uma idade exacta. Por volta dos dois anos os miúdos estão ainda centrados em possuir, e o partilhar espontâneo costuma aparecer aos poucos a partir dos três ou quatro, quando amadurecem a empatia e a tolerância à espera. Os turnos acompanhados ajudam muito antes de chegar o partilhar voluntário. Cada criança leva o seu ritmo.
Está bem obrigar o meu filho a emprestar as coisas dele?
Obrigar costuma ensinar a ceder por medo, não a partilhar de verdade. É mais útil validar que lhe custa, proteger as duas crianças com um limite tranquilo e oferecer a ferramenta do turno. Também ajuda respeitar que há brinquedos muito especiais que pode guardar antes de uma visita: isso não é egoísmo, é sentir segurança.
O que faço se o meu filho bate ou empurra para ficar com o brinquedo?
Aí entras com um limite que é acção: aproximas-te e travas fisicamente com calma, "não deixo que batas". Depois validas a emoção que está por baixo ("estás muito zangado porque queres aquilo") e ofereces o turno. O limite protege ambos; a validação atende à necessidade. Não é preciso castigo para a mensagem chegar.
Por que razão partilha em casa mas não no parque?
Em casa sente-se seguro e o terreno é dele; fora há mais incerteza e mais público, e isso põe a regulação dele à prova. Além disso, no parque costuma haver pressa e muitos olhos a olhar, o que também nos activa a nós, adultos. Praticar turnos em calma em casa dá-lhe recursos para os momentos mais difíceis lá fora.
Devo intervir sempre ou deixá-los resolver entre eles?
Depende do momento. Se o conflito se mantém com palavras e sem dano, podes ficar por perto a observar: as crianças aprendem muito a negociar. Intervens quando há risco físico, quando a emoção as desborda ou quando uma fica em grande desvantagem. Estar disponível sem resolver tudo por eles é um bom equilíbrio.
Quando é que vale a pena consultar um profissional?
Partilhar custa a quase todos os miúdos, por isso um "meu!" firme é o esperado. Se notares dificuldades muito marcadas e sustentadas para se relacionar, regular emoções ou brincar com outros, e te preocupa, podes comentá-lo com o teu pediatra sem alarme. Muitas vezes só confirmará que está dentro do normal para a idade dele.