Como ajudar uma criança que não sabe perder
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Estás a jogar um jogo do galo, um memory ou uma corrida no parque. Tudo corre bem até perder. E de repente voa uma peça, cruza os braços, chora ou grita que "assim não vale". Em ti, algo se revolta por dentro: não sabes se te rir, se ralhar ou se deixar de jogar para sempre. Respira. Que ao teu filho lhe custe perder não significa que estejas a fazer algo mal, nem que seja uma criança "mau perdedor". Perder é difícil a sério, também para muitos adultos. Neste artigo vamos olhar para o que está debaixo dessa zanga, que habilidade se está a cozer ali e como podes acompanhar o momento sem acabares tu também transbordado. Sem magia e sem fórmulas milagrosas: passo a passo.
O que está por baixo quando o teu filho não sabe perder
Debaixo dessa peça que voa não há um capricho nem vontade de te chatear. Há uma necessidade muito real: a de se sentir capaz, de sustentar a imagem que tem de si próprio. Quando perde, essa imagem abana, e o seu corpo pequeno ainda não tem ferramentas para suster essa frustração por dentro. Então a frustração sai por fora: choro, gritos, atirar o tabuleiro. Ajuda muito lembrar esta ideia: as crianças fazem o que podem com o que têm. Se tivesse a habilidade de perder com calma, usava-a. Não a usa porque ainda não a tem, e esse é precisamente o trabalho que está pela frente. Além disso, nestas idades o cérebro ainda está a aprender a distinguir entre "perdi este jogo" e "não valho". Para o teu filho, nesse instante, as duas coisas sentem-se quase iguais. Por isso a zanga é tão grande: não está a reagir a uma peça, está a reagir a como se sente consigo mesmo.
A habilidade que se está a treinar (e por que leva tempo)
Perder bem não é um traço de carácter que se tem ou não se tem. É uma competência que se desenvolve, tal como atar os sapatos ou esperar a vez. E como toda a competência, treina-se com prática e a partir da calma, não no momento do berreiro. O que o teu filho está a aprender é tolerância à frustração: notar no corpo aquele desconforto que aparece quando algo não corre como queria, e aprender que desce um bocadinho sem precisar de mandar tudo pelos ares. Também aprende que perder não lhe tira valor, que pode voltar a tentar e que jogar continua a ser divertido mesmo que não ganhe. Isto não se instala de repente. Haverá dias em que corre melhor e dias em que estoure como sempre. É normal. Cada vez que o acompanhas num "perdi" está a somar repetições, mesmo que não o vejas de imediato.
Como acompanhar o momento, em três passos
Quando já estourou, não é o momento de dar lições sobre desportivismo. O cérebro dele não consegue ouvir raciocínios enquanto está descontrolado. O que podes fazer é acompanhar o momento com algo simples e repetível.
1. Protege com um limite que é ação, não sermão
Se está a atirar peças ou a bater, o limite é uma ação tranquila: "Não deixo que atires as peças", e retiras o tabuleiro ou seguras-lhe a mão com suavidade. Sem discurso longo, sem subir o tom. Um limite firme e amável protege o jogo, protege os outros e protege-o a ele de fazer algo que depois lhe pese.
2. Valida o que sente
Aqui evita o "não tem mal", porque para ele tem. Melhor põe nome ao que vês: "Querias ganhar e perdeste. É muito irritante, não é?". Validar não é dar-lhe razão em que pode atirar coisas; é reconhecer que a emoção dele faz sentido. Só quando se sente compreendido é que pode começar a acalmar-se.
3. Co-regula: empresta-lhe a tua calma
O teu filho ainda não se consegue regular sozinho, por isso toma emprestada a tua regulação. Desce tu primeiro: respira, descontrai os ombros, fala mais devagar. Podes oferecer-lhe proximidade sem a forçar: "Estou aqui, quando quiseres continuamos". A emoção desce um bocadinho, sem magia, e isso já é aprender.
Praticar a partir da calma (quando não há tempestade)
A aprendizagem a sério acontece fora do berreiro, nos momentos tranquilos. Estas são formas concretas de treinar a habilidade sem que pareça uma aula: Joguem jogos em que perder seja frequente e rápido, para que ganhar e perder se alternem muitas vezes. Assim, perder deixa de ser um drama e passa a ser algo que acontece o tempo todo. Modela tu próprio o perder. Quando te tocar perder uma partida, mostra-o em voz alta: "Ui, queria ganhar eu... pronto, bom jogo, jogamos outra?". Ensinas-lhe mais com o teu corpo e o teu tom do que com qualquer explicação. Separa a pessoa do resultado. Em vez de "ganhaste, que craque", experimenta "vi-te muito concentrado" ou "divertiste-te, não foi?". Quando o valor não depende de ganhar, perder dói menos. E conta histórias. Às crianças chega-lhes a emoção de uma personagem que perde, se zanga e encontra maneira de continuar a jogar muito melhor do que um conselho direto. Veem no conto o que ainda não conseguem fazer sozinhas.
O trabalho do adulto nesse momento
Há uma parte disto que não é da criança, é tua. Quando o teu filho arma um escândalo por perder, pode ser que sintas vergonha ("o que vão pensar?"), pressa ("era só um jogo") ou até raiva ("ainda por cima jogo contigo..."). Tudo isso é humano e também te acontece a ti. O trabalho aqui não é que tu não sintas nada, mas sim não deitar mais lenha na fogueira. Se te engatas na luta de poder —"então não jogamos mais nunca"—, a tempestade cresce. Se tu susténs, a tempestade encontra onde se apoiar. Dá-te permissão para não o fazer na perfeição. Haverá vezes em que percas a paciência, e também isso se pode reparar depois: "Antes zanguei-me e falei-te com força. Desculpa. Vamos tentar outra vez". Reparar também lhe ensina algo enorme: que enganar-se não parte o vínculo.
Por onde seguir
Aprender a perder é um caminho de muitas repetições, e ter recursos preparados torna-o mais fácil. Se te quiseres apoiar numa história, o conto sobre aprender a perder dá-te uma personagem que vive exatamente isso —a raiva de perder e a descoberta de que pode continuar a jogar— para lerem juntos e falarem sem sermões. É uma forma de praticar a habilidade a partir da calma, com a emoção à mão e sem apontar ao teu filho. E se procuras ideias para praticar no dia a dia, nas atividades encontrarás propostas de jogo pensadas para treinar a tolerância à frustração aos poucos: partidas curtas, dinâmicas em que ganhar e perder se alternam, e momentos para modelares tu próprio o "bom jogo, outra vez". Escolhe o que se encaixa no vosso ritmo e vai somando repetições.
Recursos relacionados
Ler juntos o conto para aprender a perder (/pt/cuentos/aprender-a-perder/) Ver atividades para praticar a frustração no dia a dia (/pt/actividades/)
Perguntas frequentes
A partir de que idade é que as crianças começam a saber perder?
Não há uma idade exata. A tolerância à frustração vai-se desenvolvendo ao longo dos anos pré-escolares e escolares, e avança a ritmos diferentes em cada criança. Que ao teu filho lhe custe agora é esperado; o que ajuda é acompanhar e praticar, não esperar que "mature sozinho".
Devo deixá-lo ganhar sempre para evitar a zanga?
Deixá-lo ganhar de vez em quando não tem mal, mas se ganhasse sempre não teria ocasião de treinar a habilidade de perder. O que é útil é que perder seja frequente e de pouca intensidade, com jogos curtos, para que aprenda a suster em doses pequenas e contigo por perto.
É mau que se zangue quando perde?
A zanga não é má, é uma emoção normal perante algo que não lhe agrada. O que se acompanha é a maneira de a expressar: pode estar furioso, e ao mesmo tempo não deixamos que atire coisas ou bata. A emoção valida-se; a conduta que magoa limita-se com uma ação tranquila.
O que faço se arma um berreiro por perder à frente de outras crianças?
Desce tu primeiro e ocupa-te do teu filho, não do olhar dos outros. Um limite curto e próximo —"não deixo que atires as peças, vem"— e validar em voz baixa funciona melhor do que envergonhá-lo em público. Os outros adultos compreendem melhor do que pensas que isto é normal nestas idades.
E se lhe acontece também na escola ou com os amigos?
É habitual que apareça em qualquer lado onde haja jogo com regras. Podes falar sobre isso com calma em momentos tranquilos e praticar em casa. Se observares que lhe gera um mal-estar muito intenso e constante que o impede de jogar ou relacionar-se, comenta com o pediatra ou com um profissional, sem alarmismo, para teres um olhar mais de perto.