Línguas em casa

Criar em duas línguas sem stresses

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Se em tua casa se falam duas línguas, alguém já te deve ter dito que «assim a criança vai ficar baralhada». Vamos desmontar os mitos com calma e deixar-te ideias concretas que podes pôr em prática hoje, sem que criar uma criança bilingue se torne mais uma tarefa.

Mito 1: «Duas línguas atrasam a fala»

É o medo mais frequente, e a investigação leva décadas a desmontá-lo. As crianças bilingues alcançam os grandes marcos da linguagem —primeiras palavras, primeiras frases— dentro do mesmo intervalo de idades que as monolingues. A American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) diz isto sem rodeios: aprender duas línguas não causa nem provoca atrasos da linguagem. O que acontece, e confunde muita gente: se somares o vocabulário de uma só língua, pode parecer menor do que o de uma criança monolingue. Mas quando contas as palavras que sabe nas DUAS línguas juntas, o total é comparável. Não sabe menos: sabe repartido.

Mito 2: «Se mistura línguas é porque não sabe nenhuma»

Misturar as duas línguas na mesma frase tem nome —code-switching, ou alternância de código— e é um sinal de competência, não de confusão. Os adultos bilingues fazem-no constantemente, muitas vezes para dizer algo com a palavra que melhor o capta. O teu filho faz o mesmo: usa a ferramenta que tem mais à mão naquele momento. Com o tempo, e à medida que o vocabulário dele cresce em ambas as línguas, a mistura baixa de forma natural. Não vale a pena corrigir nem alarmar-se.

O que sabemos que de facto ajuda

Para além de ter duas línguas —o que já é um presente enorme para a vida inteira—, a investigação associa o bilinguismo a algumas vantagens, embora convenha dizê-lo com honestidade: são tendências observadas, não garantias individuais, e o debate académico continua a afinar quanto pesa cada uma. Uma bastante consistente é a consciência metalinguística: as crianças bilingues costumam aperceber-se mais cedo de que a linguagem é uma ferramenta com regras, porque manuseiam dois sistemas e compará-los. Outra é a sensibilidade comunicativa: crescer a ter de escolher «com quem falo em que língua» treina o estar atento ao outro. E há aquilo que não se mede num teste: poder falar com os avós, com a família do outro país, com uma parte inteira de quem sois. Não prometemos que o teu filho vá ser «mais inteligente»; contamos como o que é, uma riqueza real.

O que ajuda (e é mais simples do que pensas)

A evidência é bastante consistente numa coisa: o que faz crescer uma língua não é a perfeição, é a quantidade e a qualidade da exposição. Falar muito, com calor humano, sobre coisas que lhe interessam. Não se trata de dar aulas.

Fala a língua que melhor dominas

É melhor dar-lhe uma língua rica e natural do que uma pobre e forçada. Se o teu inglês é tropeçado, o teu filho aprende mais do teu português fluente cheio de nuances, canções e piadas. O calor e a riqueza pesam mais do que a língua em concreto.

Conta o que fazeis enquanto o fazes

A língua cresce no dia-a-dia. «Estamos a lavar as maçãs, vê como estão frias», «agora abrimos a gaveta das meias». Não é aborrecido para ele: é exatamente assim como se aprende.

Procura companhia na língua mais fraca

Primos, avós, outras famílias, um grupo de brincadeira, contos e áudio: quantas mais vozes diferentes ouvir na língua que menos se fala fora de casa, mais real lhe parece. Uma língua que só soa de uma pessoa é mais frágil do que uma que vive em várias.

Não transformes cada frase num exame

Evita o «como é que isto se diz em inglês?» a toda a hora. Se notas que fica em baixo ou se cala, passaste a linha. A língua aprende-se a brincar e a conversar, não a prestar contas.

E se um dia não conseguires, não acontece nada de grave

Criar uma criança bilingue é uma corrida de fundo, não um sprint. Haverá semanas com muito de uma língua e pouco da outra. Isso não estraga nada. O que constrói o bilinguismo é a constância amável ao longo dos anos, não a intensidade de um dia concreto. Este artigo descreve como funciona o desenvolvimento bilingue típico; não substitui a avaliação de um profissional. Se te preocupa a linguagem do teu filho —numa ou nas duas línguas—, fala com o pediatra dele ou com um terapeuta da fala.

Perguntas frequentes

O bilinguismo baralha os bebés?

Não. Logo desde muito pequenos os bebés distinguem as duas línguas pelo ritmo e pelos sons. Separá-las é uma capacidade que trazem de série; não se baralham.

Já é tarde para começar se o meu filho já tem 3 anos?

Não é tarde. Os primeiros anos são uma janela muito boa, mas as crianças continuam a aprender línguas com facilidade durante toda a etapa pré-escolar e para além dela. O importante é uma exposição rica e constante, comeces quando começares.

As duas línguas têm de ser perfeitas?

Não. É normal que uma língua seja mais forte do que a outra, e que isso mude consoante a etapa, a escola ou onde vivam. Um bilinguismo desequilibrado continua a ser bilinguismo.