Criar em duas línguas sem transformar isso em deveres
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Se estás a tentar criar os teus filhos em duas línguas, provavelmente já sentiste esse pequeno nó: queres que o teu filho fale as duas línguas, mas não queres que cada frase se transforme num exame. Falas-lhe num idioma, ele responde-te noutro, e por dentro perguntas-te se o estás a fazer bem. Quero dizer-te uma coisa antes de mais: essa ansiedade é normal e não significa que estejas a falhar. Criar entre duas línguas é um caminho longo, com avanços e recuos, e quase nunca se parece com o que imaginávamos. Aqui não vais encontrar um método rígido nem promessas de que o teu filho será bilingue perfeito num prazo concreto. Vamos olhar para o que uma criança precisa de verdade para viver duas línguas com naturalidade, e como podes acompanhar esse processo sem que se torne em deveres.
Por que o bilinguismo acaba a parecer uma obrigação
Muitas famílias começam com toda a vontade e, sem dar conta, a língua enche-se de correções. "Isso não se diz assim", "repete comigo", "fala-me na outra língua". Com a melhor das intenções, transformamos cada conversa numa pequena aula. O problema não é o teu esforço, é a moldura. Quando a língua se vive como uma tarefa que é preciso aprovar, a criança começa a associá-la a pressão. E uma criança que sente pressão com uma língua tende a evitá-la, não a abraçá-la. Por baixo da resistência de uma criança a falar numa língua quase sempre há uma necessidade muito simples: comunicar com à-vontade e sentir-se compreendida. Se numa língua lhe custa mais e ainda por cima a corrigem, escolhe o caminho fácil. É o que pode fazer com o que tem neste momento. Não é preguiça nem rejeição: é economia natural de quem está a aprender.
O que precisa e que competência está a desenvolver
Uma criança que cresce com duas línguas não está a fazer um exercício duplo de memória. Está a desenvolver algo maior: a capacidade de se mover entre dois mundos, escolher com quem usa cada língua e exprimir o que sente naquela que lhe sai em cada momento. A competência que treina não é só vocabulário. É flexibilidade, é confiança para se arriscar a dizer algo mesmo que não lhe saia perfeito, e é a ligação com as pessoas que falam cada língua. A língua sustenta-se em relações, não em fichas. Por isso, o mais útil que lhe podes oferecer não é mais correção, é mais motivos reais para usar cada língua: alguém com quem falar, coisas divertidas para fazer, histórias que o prendam. A competência cresce quando a língua serve para algo que importa à criança.
A necessidade de se sentir capaz
Quando uma criança se atrapalha numa língua e percebe frustração à volta, deixa de tentar. Quando sente que pode enganar-se sem drama, lança-se. Proteger essa sensação de "consigo fazê-lo mesmo que me custe" é mais importante do que qualquer lista de palavras.
Como acompanhar o momento em que responde na outra língua
Este é o momento que mais desgasta: tu falas-lhe numa língua e ele responde-te na outra. Dá-te a sensação de que não está a "entrar". Vamos ver um como concreto para esse instante, sem sermão. Primeiro, mantém a tua língua com naturalidade. Não é preciso anunciar nada nem pedir-lhe que mude. Tu manténs a tua língua de forma tranquila e constante; essa constância é o teu limite firme e amável, e é uma ação, não um discurso. Segundo, valida o que te diz, não a forma. Se te conta algo entusiasmado na língua "fácil", responde-lhe ao conteúdo com interesse genuíno, na tua língua. O importante é que a conversa não se parta. Ele ouve a tua língua, sente-se ouvido, e isso alimenta a compreensão mesmo que ainda não produza. Terceiro, co-regula a tua própria pressa. Aqui o trabalho também é teu: nota o que sentes quando ele responde na outra língua. Muitas vezes aparece medo ("vai perdê-la") ou cansaço. Reconhecê-lo ajuda-te a não transformar esse momento numa luta de poder. Ninguém aprende uma língua à força. Sem magia: não vai mudar de um dia para o outro. Mas cada conversa em que se sente compreendido e não corrigido soma. Isso já é aprender.
Um exemplo do dia a dia
Volta da escola e conta-te algo do recreio na língua do ambiente. Em vez de "em casa falamos a outra língua", podes responder na tua língua: "A sério? E então o que é que fizeste?". Segues o fio, manténs a tua língua, e ele nota que falar contigo é fácil e agradável. Com o tempo, muitas crianças começam a devolver palavras soltas na tua língua sem que lhes peças.
O jogo, não a lição, é o motor
Uma língua entra por onde entram as coisas de que gostamos. Canções, jogos com sons, contos antes de dormir, piadas parvas, inventar palavras. Tudo isso é aprendizagem real, mesmo que não pareça. Brincar com os sons de uma língua (rimas, repetições, palavras que soam engraçadas) ajuda a criança a familiarizar-se com a sua música antes mesmo de dominar o significado. E fá-lo sem pressão, a rir, que é como melhor se fixa qualquer coisa. Se puderes, reserva momentos em que a língua seja puro prazer: um conto na tua língua todas as noites, uma canção no carro, um jogo "a ver quantas palavras que começam por...". Não é tempo de estudo, é tempo de ligação. E a ligação é o que sustenta uma língua a longo prazo.
Quando cada pai fala uma língua
Se em tua casa cada adulto fala uma língua diferente, cada um mantém a sua com tranquilidade e sem mudar conforme dá jeito. Essa coerência dá à criança mapas claros de quando usar cada língua. Não é uma regra sagrada, mas ajuda a que tudo não dependa da correção.
Baixar a exigência contigo mesmo
Criar em duas línguas cansa. Às vezes sai-te falar-lhe na língua errada, ou num dia não tens energia para manter a tua. Não passa por deixar de tentar cada vez que falhas: passa por largar a ideia de que tem de ser perfeito. As crianças não precisam de um método impecável. Precisam de adultos presentes, que gostem de lhes falar, que não vivam cada frase com angústia. Se tu vives a língua como uma obrigação tensa, a criança vai percebê-lo. Se a vives como algo vosso, divertido e partilhado, também. Por isso, respira. O teu filho tem anos pela frente e muitíssimas conversas. O que hoje parece um recuo amanhã pode ser um salto. A constância amável, não a intensidade ansiosa, é o que constrói uma língua.
Por onde continuar
Se queres continuar a olhar para estes momentos com calma, no blog da Tilo vais encontrar mais artigos sobre acompanhar o desenvolvimento da linguagem, da emoção e da relação com o teu filho sem cair no controlo nem na exigência. E se te apetecer levar tudo isto para o terreno do jogo, temos uma atividade para brincar com os sons: uma forma concreta e divertida de aproximar o teu filho da música de uma língua sem que seja dever nem exame, só um tempo juntos.
Recursos relacionados
Mais artigos para acompanhar a linguagem e a emoção do teu filho com calma (/pt/blog/) Brincar com os sons: uma atividade para aproximar uma língua pelo jogo, não pelo dever (/pt/actividades/jugar-con-los-sonidos/)
Perguntas frequentes
O meu filho percebe as duas línguas mas só fala uma, devo preocupar-me?
É muito habitual. A compreensão costuma adiantar-se muito à produção, sobretudo na língua que usa menos. Mantém a tua língua com naturalidade e dá-lhe motivos agradáveis para a usar. Se te preocupa o desenvolvimento geral da linguagem, fala com o pediatra com tranquilidade, sem alarmismo.
Corrijo-o quando mistura as duas línguas na mesma frase?
Misturar línguas é uma fase normal e não significa confusão: o cérebro está a organizar dois sistemas. Em vez de corrigir, podes repetir a frase inteira bem dita na tua língua, de forma natural, sem lhe apontar o erro. Assim ouve o modelo correto sem se sentir examinado.
É tarde para começar com uma segunda língua se o meu filho já tem 4 ou 5 anos?
Não. As crianças continuam a incorporar línguas para lá da primeira infância. O que importa é a exposição regular e significativa: pessoas com quem falar, contos, jogos. A idade importa menos do que a quantidade de contacto real e agradável com a língua.
Tenho medo que confundir as línguas o atrase na escola, tem fundamento?
Com base na psicologia do desenvolvimento, crescer com duas línguas não prejudica a aprendizagem escolar. Pode haver momentos em que uma língua pareça ir atrás, mas costuma equilibrar-se. Se notares dificuldades persistentes de linguagem em qualquer língua, consulta um profissional.
E se eu não domino perfeitamente a segunda língua?
Podes dar o que tiveres: canções, contos, palavras de carinho, momentos de jogo. Não precisas de ser perfeito para transmitir o gosto por uma língua. O que mais pesa é que a criança a associe a algo bonito e partilhado contigo.