Custa-lhe fazer amigos: três frases para entrar na brincadeira
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Vês isso no parque. As outras crianças já estão a correr, a construir qualquer coisa, a rir-se, e o teu filho fica um passo atrás. Observa. Quer. Mas não entra. E tu, no banco, sentes aquele nó. Apetece-te dar-lhe um empurrãozinho, dizer-lhe “vai lá, pergunta se podes brincar”. Às vezes dizes. E ele encolhe-se ainda mais. Se isto te soa familiar, respira. Não é que haja algo de errado com o teu filho. Entrar num grupo de crianças é uma das coisas socialmente mais complexas que existem, e muitos adultos também não saberiam fazê-lo bem. Aqui vamos ver o que ele precisa de verdade para se aproximar, e três frases concretas que pode aprender a usar, sem magia e sem forçar.
O que está por baixo de “custa-lhe fazer amigos”
Quando dizemos que uma criança tem dificuldade em fazer amigos, quase nunca é um problema de vontade. A maioria quer, e muito. O que costuma faltar é outra coisa: saber como. Entrar numa brincadeira que já está a acontecer exige imensos passos invisíveis. Ler o que os outros estão a fazer. Encontrar o momento para se aproximar. Oferecer algo que encaixe no que já está a acontecer. E aguentar a possibilidade de lhe dizerem que não. É muitíssimo para um corpo pequeno. Por baixo do “não me aproximo” há quase sempre uma necessidade de segurança. A criança não avança porque ainda não tem a competência que a faria sentir-se capaz. E quando algo nos faz sentir em risco, o corpo escolhe ficar quieto. Não é timidez como defeito. É um corpo que espera até ter com que avançar. A boa notícia: fazer amigos é uma competência. E as competências treinam-se. Não se corrige uma criança para que seja mais sociável; dão-se ferramentas para que lhe custe um bocadinho menos de cada vez.
Porque empurrá-lo não funciona, mesmo que nos saia sem pensar
“Vai lá perguntar.” “Anda, eles não mordem.” “Não sejas envergonhado.” Dizemo-lo porque queremos ajudar. Mas, para a criança que já está bloqueada, esse empurrão costuma somar pressão, não segurança. Acontecem duas coisas. A primeira: pedimos-lhe precisamente a competência que ainda não tem, no pior momento, com público. A segunda: sem querer, penduramos-lhe uma etiqueta — “é que ele é muito envergonhado” — e as etiquetas pesam. A criança começa a acreditar que “é assim” e deixa de tentar. Isto não é para te sentires mal se já o disseste mil vezes. Acontece a todos, porque nós também ficamos nervosos ao vê-los sofrer um bocadinho. É normal. Só que há um caminho que funciona melhor: em vez de empurrar no calor do momento, treinar a frio. Praticar as frases e os passos quando não há pressão, em casa, a brincar. Para que, no dia do parque, a criança chegue com alguma coisa no bolso.
Três frases para entrar na brincadeira
Estas três frases não são um truque mágico. São ferramentas simples que dão à criança uma forma concreta de se aproximar, em vez de ficar a olhar sem saber o que fazer. Praticam-se antes, com calma, e depois ela escolhe qual quer usar. A ideia é que a criança tenha um plano. Um corpo com plano sente-se mais seguro do que um corpo que só espera.
“Posso brincar convosco?”
A mais direta. Funciona muitas vezes, e também recebe um não de vez em quando. Por isso convém praticar as duas partes: como perguntar e o que fazer se disserem que não. Não há problema em procurar outro grupo ou esperar por outro momento. Preparar o não com antecedência tira muitíssimo medo.
“A que é que estão a brincar?”
Mais suave do que pedir para entrar logo. É curiosidade, e a curiosidade abre portas. Permite à criança perceber do que trata a brincadeira antes de se meter nela, e para os outros é fácil responder. Muitas vezes, depois de te contarem a que estão a brincar, são as próprias crianças que convidam.
Oferecer algo: “Eu tenho uma pá, querem?”
A mais poderosa e a que menos ensinamos. Em vez de pedir para entrar, a criança acrescenta algo à brincadeira que já existe: uma ideia, um objeto, uma personagem. “E se o monstro vos perseguisse?” Contribuir transforma a criança de espectadora em parte da brincadeira, quase sem pedir autorização.
Como acompanhar o momento, passo a passo
Aqui não se trata de lhe resolver a vida, mas de estar de uma forma que lhe dê segurança. Três movimentos que podes fazer no parque, sem sermão. Primeiro, tira-lhe pressão. Antes de tudo, um “olha com calma o tempo que quiseres, não há pressa”. Observar também é participar. Que ele saiba que ficar ao teu lado durante algum tempo é uma opção válida, não um fracasso. Segundo, valida o que ele sente sem o negar. Nada de “não sejas tolo, eles são simpáticos”. Melhor: “Pois, aproximar quando já estão a brincar custa. Também me acontecia”. Quando nomeias o que é difícil, a criança deixa de se sentir sozinha com aquilo, e a emoção desce um bocadinho. Sem magia: desce um pouco, e isso já é muito. Terceiro, oferece-lhe a ferramenta, não a ordem. Em vez de “vai lá perguntar”, podes dizer baixinho: “Queres experimentar aquela de perguntar a que estão a brincar?” Lembras-lhe o plano que já praticaram. E, se hoje não tiver coragem, também não faz mal. Fica para outro dia. E um quarto ponto, para ti: repara no que esse momento mexe em ti. Às vezes, a pressa para que ele avance é mais nossa do que dele. Quando tu relaxas no banco, ele nota e também relaxa. A tua calma faz parte da segurança dele.
O que é melhor evitar
Há algumas armadilhas fáceis em que caímos com a melhor das intenções. Evita as etiquetas à frente dele. “É muito tímido”, “tem vergonha de tudo”, “não gosta de crianças”. Mesmo que seja para explicares a outro adulto, a criança ouve e acredita. Melhor descrever o momento: “hoje está a observar antes de entrar”. Evita comparar com irmãos ou com outras crianças do parque. Cada um tem o seu ritmo para isto, e o ritmo não é uma corrida. E evita transformar o parque num exame. Se cada saída se torna “vamos lá ver se hoje brincas com alguém”, o parque deixa de ser um lugar agradável. Às vezes, o melhor dia é aquele em que só observa e vai embora contente. Isso também é avançar. Se notas que o mal-estar do teu filho com outras crianças o ultrapassa de forma muito intensa ou constante, e o impede de desfrutar em muitos contextos, não faz mal nenhum falar disso com o pediatra. Não como alarme, mas para teres mais olhares a acompanhar-vos.
Por onde começar esta semana
Não é preciso fazer tudo. Começa por praticar em casa. Transformem as três frases num jogo: tu fazes de criança que está a brincar e o teu filho experimenta aproximar-se. Riam-se, enganem-se, repitam. Praticar a partir da calma é o que faz com que a competência esteja disponível quando chegar o momento real. Os contos ajudam muito aqui, porque a criança vê uma personagem passar pelo mesmo que ela, com o seu nó na barriga, e descobre como entra na brincadeira, sem que ninguém lhe dê uma lição. No nosso conto sobre fazer amigos, vais encontrar essa história e a frase-ferramenta que podem repetir juntos quando chegar a hora de se aproximar de outras crianças: é um bom ponto de partida para levar tudo isto para algo concreto. E, se te apetecer continuar a treinar de uma forma mais lúdica, nas nossas atividades tens propostas simples para praticar em casa, sem pressão, esses pequenos passos de aproximar, perguntar e contribuir. Ideias para brincar durante a semana, para que o dia do parque não chegue a frio. Lembra-te: não procuramos que o teu filho se transforme de repente no mais lançado do parque. Procuramos que tenha, de cada vez, um bocadinho mais com que avançar. E isso, passo a passo, é exatamente o que vai acontecendo.
Recursos relacionados
Lê o conto sobre fazer amigos: uma história para viver o nó de se aproximar e descobrir a frase-ferramenta que podem repetir juntos (/pt/cuentos/hacer-amigos/) Explora as nossas atividades: jogos simples para praticar em casa, sem pressão, os passos de se aproximar, perguntar e contribuir (/pt/actividades/)
Perguntas frequentes
O meu filho é demasiado tímido para fazer amigos?
A timidez não é um defeito que tenha de ser corrigido, mas um temperamento mais prudente que precisa de segurança para avançar. Muitas crianças observam antes de entrar, e isso é uma forma válida de participar. Em vez de o etiquetares como tímido, dá-lhe ferramentas concretas — frases, passos — e pratica com calma. Com mais competências, cada aproximação custará um bocadinho menos.
A partir de que idade é que as crianças começam a fazer amigos a sério?
A brincadeira com os outros vai evoluindo pouco a pouco: primeiro brincam ao lado de outras crianças, depois brincam juntas, e mais tarde surgem amizades mais estáveis, normalmente por volta dos quatro ou cinco anos. Cada criança tem o seu ritmo, por isso comparar não ajuda. O importante é acompanhar os passos que o teu filho já consegue dar hoje.
Devo empurrá-lo para se aproximar ou deixá-lo sossegado?
Nem empurrar nem deixá-lo sozinho com o nó. Empurrar no calor do momento costuma somar pressão; ignorar deixa-o sem apoio. O que funciona é treinar a frio, praticar as frases e os passos em casa a brincar, e no parque oferecer-lhe a ferramenta sem obrigar: “Queres experimentar aquela de perguntar a que estão a brincar?” Se hoje não tiver coragem, fica para outro dia.
O que faço se lhe disserem que não pode brincar?
O não faz parte do processo, e prepará-lo com antecedência tira muito medo. Podes praticá-lo em casa: “Se te disserem que não, isso não significa que ninguém goste de ti; podes esperar por outro momento ou procurar outro grupo.” Valida o que ele sente — “claro que magoa” — sem minimizar, e lembra-lhe que um não de hoje não fecha a porta de amanhã.
Quanto tempo vai demorar até se soltar com outras crianças?
Não há um prazo fixo, e desconfia de quem o prometa. Fazer amigos é uma competência que se treina ao longo do tempo, com altos e baixos. Haverá dias de aproximação e dias de só observar, e ambos contam. O que podes esperar é que, com prática em calma e o teu acompanhamento, ele tenha de cada vez um bocadinho mais com que avançar.