O meu filho bate ou morde: mãos quietas e voz para pedir parar

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Estás no parque, tudo vai bem, e de repente o teu filho empurra outra criança. Ou morde-te a ti mesmo no meio de um abraço. E tu ficas ali, com a cara a arder, sem saber se o tiras ao colo ou se lhe dizes algo a sério. Sei o quão difícil é esse instante. Se chegaste até aqui à procura de uma resposta para o teu filho bater e morder, respira um momento. Não é que se comporte mal. Não é uma criança agressiva. É uma criança pequena que, nesse segundo, não tinha outra ferramenta à mão. E isso, mesmo que não pareça, tem arranjo: não reprimindo a pancada, mas dando-lhe algo melhor para fazer com o que sente. Neste artigo contamos-te o que está por baixo dessa conduta, que habilidade podem treinar juntos e, sobretudo, o como do momento. Sem magia, sem fórmulas de um dia para o outro. Com calma e com passos concretos.

O que está por baixo quando bate ou morde

As crianças fazem o que podem com o que têm. E quando uma criança pequena bate ou morde, quase sempre é porque o corpo se encheu de algo (raiva, frustração, sobreexcitação, até alegria intensa) mais rápido do que as palavras lhe conseguem sair. Por baixo de cada mordidela ou empurrão há uma necessidade que ainda não sabe exprimir de outra forma. Pode ser "quero aquilo e não me dão", "há demasiado barulho e não aguento mais", "quero que pares" ou até "quero-te tanto que não sei o que fazer com esta emoção". A conduta não é o problema: é o sinal de que lhe falta uma ferramenta. E há algo importante que ajuda a tirar-nos peso de cima: morder e bater nestas idades é uma parte esperável do desenvolvimento, não uma prova de que estejamos a fazer algo mal. A criança não está a ser má. Está a ser pequena.

Porque se repete mesmo que ralhes

Uma conduta repete-se porque, à sua maneira, funciona. Se ao morder consegue o brinquedo, ou consegue que o irmão se afaste, ou consegue que tu acudas a correr, o corpo aprende que isso serve. Ralhar não muda isso: só acrescenta tensão ao momento. O que muda é oferecer-lhe uma saída melhor que também lhe funcione.

A habilidade que treinamos: mãos quietas e voz para pedir parar

Não se muda uma conduta proibindo-a. Muda-se dando habilidades. Quantas mais o teu filho tiver, menos vai precisar da mordidela. A competência que trabalhamos aqui tem duas faces. Uma é física: notar o impulso no corpo e aprender a travar a mão antes de sair disparada. "Mãos quietas" não é uma ordem, é uma habilidade que se pratica uma e outra vez, a partir da calma, não em pleno arranque. A outra face é a voz. Dar-lhe palavras simples para o que quer pedir: "para", "meu", "não gosto", "ajuda". Não se trata de recitar um discurso, mas de ter à mão uma alternativa mais rápida e mais útil do que os dentes. Isto não acontece de uma vez. É uma aprendizagem lenta, de muitas repetições. No início vai continuar a bater, e depois bate e logo diz "para", e mais à frente dirá "para" antes de bater. Cada um desses passos já é aprender.

O como do momento: três passos quando já aconteceu

A quente não há lições que valham. O cérebro pequeno está a transbordar e não consegue aprender nada enquanto a emoção está em cima. O teu papel não é ensinar nesse instante: é não deitar mais lenha na fogueira e suster. Estes três passos, nesta ordem, dão-te um guião para quando já mordeu ou bateu.

1. Proteger com um limite que é ação, não sermão

Um limite é algo que se faz, não algo que se explica. Se está a morder outra criança, aproximas-te, separas com suavidade e metes o teu corpo ou a tua mão no meio: "Não deixo que mordas. Estou aqui." Curto, firme e amável. Sem gritar, sem sermão. A ação protege os dois: quem recebe e o teu, que não consegue parar sozinho.

2. Validar o que estava por baixo

Antes de mais, dá nome ao que sentia, não ao que fez: "Querias aquele carro e deu-te imensa raiva." Não estás a aprovar a mordidela; estás a mostrar-lhe que o entendes. Evita o "não é nada", porque sim, era alguma coisa para ele. Validar a emoção é o que baixa um pouco o volume e abre a porta ao resto.

3. Co-regular e, depois, oferecer a alternativa

Quando o corpo começa a acalmar-se, acompanha-o: respirar juntos, um abraço se o aceitar, ficar perto em silêncio. E só então, já em calma, dás-lhe a ferramenta: "Quando quiseres que pare, podes dizer para, assim." Podes praticá-lo com ele num momento tranquilo, até a brincar. A reparação com a outra criança também conta: chegar perto, oferecer o brinquedo, um gesto. Não obrigatória, acompanhada.

O que convém evitar (e porquê)

Há reações muito comuns que, sem querer, deitam mais lenha na fogueira ou deixam a criança sem a habilidade de que precisa. Morder de volta "para que veja o que se sente". Não ensina empatia; ensina que morder é o que fazem os adultos quando se zangam. Etiquetar: "és uma criança agressiva", "que menino mau". A criança acaba por acreditar e uma criança que se acredita má bate mais, não menos. As grandes explicações morais a quente. "Gostavas que te mordessem a ti?" não chega a um cérebro a transbordar. A conversa, se a houver, vai depois e muito curta. Minimizar ("não é para tanto") ou, pelo contrário, dramatizar com um castigo grande. Nem uma coisa nem outra: o objetivo não é que passe mal, é que aprenda outra maneira. E uma para ti: não leves cada mordidela como um fracasso teu. A ti também te transborda o corpo nesses momentos. Notar o que te acontece a ti (vergonha?, que te julguem os outros pais?, a tua própria raiva?) é parte do trabalho, e fazê-lo com amabilidade para contigo ajuda-te a responder com mais calma da próxima vez.

Quando pedir apoio profissional

Bater e morder faz parte do desenvolvimento nos primeiros anos, e na maioria dos casos vai cedendo à medida que chegam as palavras e a regulação. Ainda assim, se notas que a conduta é muito intensa e frequente, que aparece de forma nova e brusca numa criança mais velha, que lhe custa imenso acalmar-se em geral ou que vem acompanhada de outros sinais que te preocupam, não hesites em comentá-lo com o teu pediatra. Não como alarme, mas como mais um apoio. Às vezes um olhar profissional tranquiliza e orienta, e isso também é cuidares dos dois.

Por onde seguir em casa

Tudo isto treina-se melhor a partir da calma, não em pleno morder. E uma das formas mais naturais de o fazer com crianças pequenas é através do conto e da brincadeira, onde podem praticar sem que ninguém as repreenda. No nosso conto sobre bater e morder, o teu filho vê uma personagem que sente o impulso no corpo, aprende a travar as mãos e descobre uma voz para pedir que parem. A mesma frase-ferramenta que depois podem usar juntos no momento real. Serve para pôr palavras no que lhe acontece sem sermões, lendo-o uma e outra vez quando estão tranquilos. E se procuras formas concretas de praticar "mãos quietas" e ensaiar as palavras a brincar, na nossa secção de atividades vais encontrar propostas simples para fazer em casa, em momentos de calma, que vão dando essas ferramentas aos poucos. Sem magia: não vai deixar de morder esta semana. Mas cada vez que praticam a alternativa a partir da calma, estão-lhe a dar algo melhor do que os dentes. E isso já é aprender.

Recursos relacionados

Ler o conto sobre bater e morder, onde a personagem aprende a travar as mãos e a pedir que parem com a voz (/pt/cuentos/pega-y-muerde/) Ver atividades para praticar em casa mãos quietas e as palavras para pedir parar, em momentos de calma (/pt/actividades/)

Perguntas frequentes

É normal que o meu filho de 2 anos morda?

Sim, é uma conduta esperável nos primeiros anos. Nestas idades o impulso chega mais rápido do que as palavras, e morder ou bater é a saída que têm à mão quando não sabem exprimir o que sentem. Vai cedendo à medida que crescem as competências de linguagem e regulação.

Está bem morder-lhe de volta para que entenda o que se sente?

Não é recomendável. Não ensina empatia, porque o cérebro dele ainda não a processa assim, e em troca mostra-lhe que morder é o que fazem os adultos quando se zangam. É melhor separar com um limite tranquilo, dar nome ao que sentia e oferecer-lhe outra forma de pedir o que quer.

O que lhe digo no momento em que bate?

Algo curto e firme enquanto ages: "Não deixo que batas. Estou aqui." Depois valida o que estava por baixo: "Querias aquilo e deu-te muita raiva." A alternativa ("podes dizer para") dás-la depois, quando já está mais em calma, não em pleno arranque.

Já lhe expliquei mil vezes que não morda e continua a fazê-lo. O que faço mal?

Não fazes nada mal: as explicações a quente não chegam a um cérebro a transbordar, e morder repete-se porque à sua maneira funciona. O que muda a conduta não é explicar mais, é praticar a partir da calma uma alternativa que também lhe sirva, como travar as mãos e pedir com a voz.

Quanto tempo demora a deixar de bater e morder?

Não há um prazo fixo e depende de cada criança. É uma aprendizagem lenta, de muitas repetições: primeiro vai bater e depois dirá "para", mais à frente dirá antes. Cada um desses pequenos avanços já conta, mesmo que não signifique que desapareça de um dia para o outro.

Quando devia consultar um profissional?

Se a conduta é muito intensa e frequente, aparece de forma nova e brusca numa criança mais velha, custa-lhe imenso acalmar-se em geral ou te preocupam outros sinais, comenta-o com o teu pediatra. Não como alarme, mas como um apoio que te pode orientar e tranquilizar.